Elas, escrevivências: a ciranda das catadoras
Este livro faz parte da atividade de extensão desenvolvida com as cotadoras de materiais recicláveis do município de Cicero DantasBahia, como produto pedagógico de conclusão do mestrado em Ciências Ambientais. A ideia se caracteriza no resgate da memória das mulheres que fizeram parte da pesquisa, no contexto da vivência de cada uma, retratando as histórias de vida, muitas vezes relegadas ao esquecimento, tolhidas de condição digna e desamparadas de visibilidade precisa. São mulheres artesãs da sensibilidade cotidiana imposta pela subjetividade social, sobreviventes das intempéries situações castigadas pela submissão, verdadeiras habitantes de territórios reais. Nesse acinzentado cenário, surgem as narrativas denominadas escrevivências, há uma composição de um painel de lembranças e vivências calcados no trabalho árduo, na pobreza e na exclusão. Apresentada por Conceição Evaristo, escritora, ativista, mulher e professora negra, a escrevivência traz para além das nossas fronteiras, a atração exercida pela escrita emocionada, que conjuga realidades sofridas com sentimento e lirismo, alimentando o interesse dos leitores por novas histórias. E assim como uma das personagens de Evaristo, no livro Becos de memória, ao questionar as histórias limitantes expostas nas escolas e pensar: “Quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente. A vida não poderá gastar-se em miséria e na miséria” (Evaristo, 2006, p. 138-147). E desta forma, ter-se como inspiração, não apenas a leitura, mas a escrita, tornar escritora, escrever sobre a realidade, a vivência, como uma forma de protesto, de rebeldia e de sobrevivência da mulher. Desses fatos, o presente caderno traz memórias silenciadas pela sociedade eurocêntrica e capitalista que ouve apenas o homem branco e burguês, base do poder da desigualdade, construtor de mundos subalternos, colonializando pensamentos. Quantas Evaristo não há nesse mundo? Com suas histórias de vida que nutre o verdadeiro sentido do existir, faltando-lhe apenas acreditar que é capaz de construir o seu espaço intelectual entre o ouvir e ser ouvida; entre a voz e sua vez de se expressar. Portanto, as narrativas presentes traduzem as histórias que foram contadas e vivenciadas pelas cotadoras de materiais recicláveis, partícipes das rodas de conversas no finalzinho de tarde, aquecidas pelo pôr do sol, nos inspirando a transcrição das histórias, na qual a narradora pede licença, enquanto mulher, eis, branca, privilegiada, mas que ao mesmo tempo, assegura o seu lugar de fala, enquanto pesquisadora, mulher, educadora e mãe. À vista disso, a partir desse lugar de espectadora, busca compreender a vivência da mulher negra, da mulher cotadora, da mulher mãe, enfim, do real lugar de fala de cada uma delas, tornando-se semeadora das vozes femininas, do desconhecido, do silêncio que agora fala.







