Fora do prazo de validade: resenhas de obras de crítica e teoria literária

A historiadora da leitura Leila Mezan Algranti flagra, em Livros de devoção, atos de censura, um ca(u)so curioso. Em 1808, teria surgido, em Lisboa, obra da lavra do ex-bispo de Pernambuco, Azeredo Coutinho, com o intuito de responder uma série de dúvidas dos colonos acerca dos sacramentos católicos, em especial, o matrimônio. O livro chama atenção pois relata a apropriação inusitada de um paroquiano, Pedro — “homem rústico” — de um certo volume de teologia moral. Lendo em voz alta a referida obra, deparou-se com a prerrogativa de que ao se deitar com a mãe da noiva, qualquer casamento seria invalidado. A esposa de Pedro, Maria, percebendo o estupor da personagem diante da leitura — aparentemente inocente —, questionou o que houve. Pedro, então, narra como “pretendendo casar com Maria, cujo pai se achava ausente, procurou conseguir a amizade de Francisca, mãe de Maria, para obter dela o consentimento para casar com sua filha: que Francisca por esta familiaridade se facilitou a ter cópula com ele Pedro sem que a filha Maria soubesse, nem tivesse a menor desconfiança” Maria, estarrecida diante da descoberta, recusou Pedro que, por sua vez, procurou o padre da região, encontrando apenas mais dúvidas. E é aí que intervém a escrita do bispo.
Importa pouco a verdade do relato. Ainda assim, imagina-se uma cisão, uma indecisão, um choque entre a letra da teologia moral e sua apropriação pela vida. Azeredo, diante do ocorrido, resenha uma série de argumentos eruditos e elaborados, refutando-os, até, por fim, defender a posição moderada de que o casamento seria válido, pois a cópula oculta não poderia onerar Maria e seus filhos. Para além da anedota, Algranti tece análise fina: “revela-se, assim, um dos níveis da hierarquia da Igreja: o nível vertical que compreende o bispo, o padre e Pedro; […] [e um] horizontal composto por Azeredo e outros eruditos e teólogos, no qual a opinião dele é uma entre outras, e pode ser contraditada por outro, caso Maria, por exemplo, pudesse e quisesse consultar outro bispo, que poderia ler no livro de teologia moral o mesmo que a maioria dos comentadores [aos quais Azeredo se contrapõe]”.
Apesar de longa, creio que a anedota possa ser exemplar para se pensar os possíveis impactos de uma resenha. Ao resenhar as opiniões de outros teólogos a respeito da interpretação de cânones, Azeredo, visando controlar a “má” leitura do “rústico” Pedro, apenas afirmou a diferença: apenas evidenciou que sua própria leitura era uma a mais, talvez liberal em excesso, diante de outras inúmeras iterações da compreensão.
A partir desse relato, recolhemos resenhas que dialoguem com essa ambiguidade performativa. Especialmente, nos interessamos por resenhas de livros “velhos”. Livros que continuam sendo lidos, às vezes por muitos, às vezes por poucos. Clássicos, disponíveis para uma nova leitura, provocadora ou retificadora. Ou talvez, obras que passaram abaixo do radar, recebidas de forma ligeira, sem o tempo da digestão.
Nossa ideia é disponibilizar um espaço concentrado para dar vazão à possibilidade de falar daquilo que não costuma ter muito espaço: o trabalho de outrem, e como esse nos toca, nos mobiliza, nos enfurece (por que não?), muitas vezes em silêncio, em uma cena de bastidores, fora do palco. Como sugere o caso de Azeredo, o ato de resenhar pode desarmar a força da afirmação, revelando a precariedade de qualquer posição entre tantas possíveis.

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