Com ou sem geleias e patês (crônicas)

A crônica tem sido minha companheira mais fiel. Através dela, o mundo que eu vejo, sinto, percebo e conheço, direta ou indiretamente, ganha versões escritas, por meio das quais eu mesma, depois, me reconheço.
Meu tempo tem, na maior parte das vezes, a carnadura do “cronos” de que as crônicas são feitas. Há um deus por trás delas. E também há vários deuses em torno de mim. Porque escrever sobre o mundo e o sobre o tempo nele inscrito parece ser uma forma quase mística de continuar tentando Ser dentro do reino opressor do Ter. E é pela imaterialidade do Ser que as crônicas continuam brotando em mim, ainda que motivadas pela concretude dos dias e das coisas.
A crônica é, simultaneamente, simples e complexa. É simples quando é devorada como um pedaço de pão pela fome. É complexa quando há tempo para geleias e patês. Pode ser absolutamente inútil em ambos os casos. Mas a verdade é que não escrevo para ser útil ou para que minhas palavras sejam devoradas com pressa ou saboreadas com deleite. Tenho até certeza de que, muitas vezes, o que minhas crônicas provocam são engasgos ou mesmo ânsias. Não importa. É sina.
Meu drama é que, embora eu escreva crônicas “porque o instante existe”, tal como diz o poema de Cecilia Meireles, minha vida não está completa (e aí destoo do mesmo poema). E a cada crônica que escrevo firmo um pacto de seguir vivendo em busca de respostas sobre a imensa, a inesgotável incompletude humana, que, em nossos dias, anda muito esquecida de sua própria humanidade.
Por isso, tal como fiz em Catimbó (2018) e Dois mil e vinte e três (2023) – disponíveis em www.ramalhochris.com – volto a reunir produções de minha autoria na forma de e-book, para deixar o registro de uma história cercada de crônicas por todos os lados. Neste caso, as 48 crônicas aqui apresentadas foram publicadas em 2024 e 2025, no Portal JL Política & Negócio (https://jlpolitica.com.br/), do poeta e jornalista Jozailto Lima, que generosamente me acolhe desde 2023 como articulista.

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